El Colorado Launch: Quando a Montanha Te Coloca no Seu Lugar

Esta é daquelas histórias que te deixam sem fôlego — não apenas pelo impacto, mas pela dose de humildade que a montanha te serve justamente quando você acha que está dominando tudo. É o clássico momento de “excesso de confiança” que termina com um inesquecível “yard sale”.

EL COLORADOPR

Mauro | Entusiasta do esqui desde 1978

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Há um ponto perigoso na vida de todo esquiador: aquela fase em que você não é mais um “baby das pistas”, deixa o medo básico para trás e começa a sentir o “flow”. Você sente que domina os esquis, acha que está “carving nos trilhos” e se lança com uma confiança que às vezes beira a ostentação. Eu estava exatamente ali.

Era um dia no final da temporada em El Colorado. Como costuma acontecer nessa época, a neve natural estava em retração, e o resort dependia das máquinas de neve artificial para manter as pistas conectadas. Eu descia uma daquelas longas pistas que terminam no hotel, “deixando rolar”, pegando algum ar nos rollers e apenas curtindo a velocidade.

Não quero parecer um “hotdogger”, mas naquele momento, senti que estava “voando”. Eu ia em velocidade respeitável, talvez 50 ou 60 km/h, sentindo o vento no rosto e aquela satisfação de estar no total controle. Ou ao menos, assim pensava.

A Armadilha Invisível

Enquanto descia, notei à distância que a neve mudava de tonalidade. Não era uma cor diferente, mas um brilho distinto, uma textura que hoje, com anos de experiência, eu identificaria a quilômetros de distância, mas na época ignorei com um nível olímpico de negação. Meu erro foi não “ler a pista”. Em vez de tomar precauções, segui direto. Reduzi um pouco a velocidade, talvez para 30 km/h por instinto, mas fui em linha reta.

O que aconteceu em seguida foi uma questão de milissegundos.

No instante em que meus esquis atingiram a transição — uma mistura pegajosa de neve artificial aquecida pelo sol da tarde — o efeito foi como cravar minhas “pranchas” no concreto molhado. Os esquis travaram e pararam de repente, como se alguém tivesse colocado um “pizza wedge” instantâneo. Mas meu corpo, carregado pelo puro momentum, não recebeu o aviso.

Fui para o ar. Literalmente.

Senti-me girar no ar como uma perfeita cambalhota. O mundo girava: céu, neve, céu, neve, até que aterrisei com um baque surdo e um estalo interno que reverberou por toda minha coluna. Senti o famoso “crack”. Apenas fiquei ali, imóvel, sentindo o pesado silêncio que segue uma queda massiva, enquanto a dor começava a se anunciar pelo corpo inteiro.

O Dilema do Seguro e o Instinto de Sobrevivência

Enquanto estava estendido na neve de El Colorado, minha cabeça não processava apenas a dor física, mas também um problema logístico bastante particular. Naquela época, eu morava na Argentina e estava no meio da mudança de volta para o Chile. Meu seguro de saúde estava lá, do outro lado da cordilheira, e minha cobertura no Chile era, para dizer o mínimo, inexistente naquele momento.

Fiquei imóvel, fazendo um inventário mental. “Se isso for sério”, pensei, “estou em neve profunda”. O plano na minha cabeça quase merecia filme: se a dor não passasse em alguns dias, eu pegaria um voo para a Argentina, me trataria lá e pronto. Era loucura, mas na montanha você pensa coisas estranhas com adrenalina e choque misturados.

Felizmente, o corpo é resiliente. No segundo ou terceiro dia, a dor começou a diminuir. Fiz alguns exercícios, minha própria versão de fisioterapia, muita paciência, e milagrosamente, o pior passou. E aqui vem o que nos define como esquiadores: no minuto em que a dor me permitiu me mexer, a primeira coisa que fiz foi pegar os esquis e subir a montanha novamente.

Adeus aos Andes Centrais

Aquele foi, sem eu saber na época, um dos meus últimos momentos esquiando nos Andes Centrais. Foi uma espécie de despedida “crash-and-burn” na mesma pista onde, anos antes, ainda criança, tive meu primeiro grande acidente.

Na ocasião infantil, tive uma colisão frontal com um “Jerry” que não conhecia o código da montanha. Eu era apenas uma criança, mas já conhecia as regras não escritas da neve: o esquiador de descida tem prioridade, e você, vindo por trás, deve antecipar. Esse cara invadiu minha linha, e ambos acabamos no chão. Mas aquilo foi um acidente de aprendizado; El Colorado como adulto foi um choque de realidade.

A montanha tem seu jeito de ensinar. Ela te dá confiança, deixa você brincar, mas de vez em quando te “manda passear” para lembrar quem realmente manda. Aquela cambalhota tirou um pouco da minha arrogância e me deu muito mais respeito pelas mudanças nas condições da neve.

Essas foram minhas últimas marcas na zona central antes de partir. Levei comigo a memória do ar de El Colorado, o gosto amargo da neve artificial me prendendo, e a satisfação de saber que, apesar dos estalos e da cobertura médica falha, sempre voltei de pé.

Como sempre digo, a neve entra no sangue. E mesmo que minhas descidas hoje estejam longe dos Andes, toda vez que vejo uma mudança na superfície da neve, lembro daquele voo e sorrio. Porque se você nunca “comeu poeira” assim, não pode dizer que realmente viveu a vida na montanha.

Contarei mais histórias depois — deixei muitas espalhadas pelos Andes! ❄️🤕