O Guardião do Vento: Uma lenda da patrulha de esqui Mapuche em Chapelco

Descubra a história épica de um pioneiro Mapuche que serviu por 47 anos na Patrulha de Esqui de Chapelco. Da estepe patagônica aos Alpes austríacos, uma trajetória de resgate e legado.

CHAPELCOPR

Staff | Série Lendas Patagônicas

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Esta é a história de um homem que carrega a cordilheira no sangue e o compromisso no olhar. Não é apenas um relato de trabalho; é a crônica de como um menino, deixado sozinho com seis ovelhas na estepe patagônica, acabou ensinando aos europeus como salvar uma vida no fim do mundo.

Um legado nascido da perda

Os mais velhos dizem que, para conhecer verdadeiramente o Cerro Chapelco, não se deve olhar para as máquinas, mas ouvir as histórias de quem chegou quando o complexo era apenas um esboço topográfico sobre neve virgem. Entre eles se destaca uma figura que parece esculpida na própria rocha do lago Lácar: um homem descendente da comunidade Mapuche de Namuncurá, a 100 km de San Martín de los Andes, com o coração endurecido pela perda e pela necessidade.

Sua história, contada ao redor de fogueiras pelos habitantes locais, começa com um vazio. Tinha apenas sete anos quando seu pai faleceu, deixando-o e seus quatro irmãos mais novos com uma herança que muitos considerariam um fardo, mas que para eles foi uma escola de vida: seis ovelhas e cinquenta cabras. Naquela época, a lã valia mais que ouro, e aqueles animais eram a ponte entre fome e sobrevivência. Aos onze anos, enquanto outras crianças começavam a descobrir o mundo, ele já se despedia da mãe para trabalhar nas estâncias Chacayal e Cerro Los Pinos. Partiu menino para se tornar o homem que levaria o pão à mesa dos irmãos.

As primeiras estacas na neve

Chegou a San Martín de los Andes em 1977, época em que o leite era distribuído casa a casa em sulkys puxados por cavalos. Trabalhou em uma leiteria local até que a montanha, seu destino final, o chamou.

Ao pisar em Chapelco pela primeira vez naquele mesmo ano, o teleférico era apenas um desenho em papel francês. Em 30 de setembro, foi encarregado de subir aos 1600 metros com um topógrafo estrangeiro. A primavera não significava nada naquela altitude; tiveram de remover um metro e meio de neve apenas para encontrar a terra e fincar as estacas de medição. Ele esteve presente no primeiro desmonte, o primeiro sinal do complexo turístico que os visitantes desfrutam hoje. Enquanto os jovens de 2026 dão por certo cabos e teleféricos, ele lembra o suor de limpar o bosque à mão.

De Liftie a lenda

Sua ascensão na montanha foi tão natural quanto o derretimento da neve na primavera. Começou como “remonteador”, ajudando esquiadores a subir nas velhas cadeiras duplas. Mas a curiosidade o dominou. Nos dias livres, pedia esquis emprestados. Nunca tinha esquiado, mas no primeiro dia já descia da cadeira tripla. No segundo dia, estava no topo. Uma tarde, enquanto esquiava sob a linha do teleférico, os responsáveis o viram deslizar com a fluidez que só os filhos da terra possuem. “Esse garoto pertence à Patrulha de Esqui”, disseram.

Ele entrou no escritório tremendo, temendo ser despedido. Em vez disso, saiu com um uniforme novo: Pistero Socorrista. Começou ali uma carreira de 47 anos. Especializou-se em traumatologia de montanha e medicina em altitude, mas sua maior habilidade foi manter a calma quando a tragédia atingia a montanha. Tornou-se paramédico do frio, testemunhando vidas sendo perdidas e outras salvas na vastidão branca.

O milagre do riacho

Uma das lendas mais duradouras sobre ele ocorreu perto da crista, na região do T-Bar. Três adolescentes apareceram exaustos, relatando que haviam deixado um amigo para trás. Eram 19h e o sol se punha. O grupo de busca saiu, mas o rastro se perdeu em um riacho. A meia-noite passou em total escuridão. Com lanternas que mal perfuravam a noite, um companheiro avistou uma pegada na água. O garoto perdido, suficientemente astuto para sobreviver, havia tirado os esquis e caminhado pelo leito do riacho para não afundar na neve profunda.

Encontraram-no às 1h da manhã, escondido em uma pequena fenda sob uma rocha, com água correndo sobre ele. Estava dormindo, protegido do vento, usando a água a zero grau como isolamento, com dez graus abaixo de zero. Esse resgate segue sendo seu maior orgulho, testemunho da intuição que apenas meio século nas pistas pode oferecer.

Dos Andes aos Alpes

Sua sabedoria na montanha o levou a Bariloche e depois à Europa. Por seis meses, trabalhou como patrulheiro nos Alpes, onde chefes franceses e austríacos ficaram maravilhados. “Vocês na Argentina não estão tão longe”, disseram. Mas ele sabia que no Sul se trabalhava com outra paixão. Introduziu técnicas modernas, mas sempre manteve a essência do homem que lê o tempo nas nuvens.

Hoje, após quase cinquenta anos de serviço, a doença o obrigou a se aposentar. Mas Chapelco continua sendo seu lar. Casou-se com uma mulher da comunidade Corincura, e seus dois filhos seguiram seus passos, servindo hoje como patrulheiros na mesma montanha.

Dizem que se você subir ao topo hoje e ouvir atentamente, ainda pode sentir o espírito do menino que distribuía leite em sulky e acabou salvando vidas na neve. O homem se aposentou, mas a alma do patrulheiro permanece para sempre nas encostas de Chapelco.