Portillo: A História do Esqui de Velocidade e o Dia em que Realmente me Apaixonei pelo Esqui
Descubra a lendária história do esqui em Portillo: o recorde de 200 km/h de 1978 e os relatos pessoais de um esquiador ao longo da vida sobre quedas, conquistas e paixão nos Andes chilenos. Leia a história de Mauro agora.
PORTILLOPR
Mauro | Amante do esqui desde 1978
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Naquela época — não faço ideia se ainda funciona assim — os funcionários do hotel podiam trazer seus filhos ou parentes (eu me enquadrava) por alguns dias, pagando uma taxa mínima, quase simbólica. Tudo era registrado na famosa “CP” (Conta Pessoal). Lembro perfeitamente daquela sensação de importância: você entrava para o almoço cercado por americanos e esquiadores profissionais, passava o cartão como se soubesse exatamente o que estava fazendo, dizia “CP” e eles batiam o ponto. Para uma criança, ter esse tipo de “poder” em um hotel de luxo na neve era pura magia.
O Clique: Entre Quedas e Curvas Gigantes
Meus primeiros dias foram, honestamente, um desastre. O esqui não gostava de mim, e eu não gostava do esqui. Eu caí — muito — inúmeras vezes. Afundava na neve fofa, cruzava os esquis, acabava todo torcido. Mas depois de tantas quedas, algo clicou. De repente, a lógica da transferência de peso fez sentido, o equilíbrio encontrou seu lugar e entendi a relação entre meus ombros e a linha de queda. A partir daquele momento, tudo mudou. Eu realmente comecei a amar o esqui — e uma vez que isso acontece, não há volta. É um romance para a vida inteira.
Naquele ano, Portillo era um carnaval de neve e adrenalina. Jornalistas de todo o mundo, equipes de elite com uniformes que pareciam trajes espaciais, câmeras por todos os lados. Nunca tinha visto o esqui profissional de perto e, de repente, estava cercado por esquis com mais de dois metros, pesados como vigas, e protótipos bizarros com formas aerodinâmicas.
Foi ali que vi Steve McKinney, o pioneiro americano. O homem era uma força da natureza. Foi exatamente em 1978, na nossa neve, que ele quebrou a barreira dos 200 km/h. Ver essa velocidade de perto — ouvir o vento gritar enquanto aqueles homens de vermelho voavam — é de explodir a mente. Eu assistia de olhos arregalados, sentindo que estava no centro do universo.
Aprendendo com os Melhores (Perseguindo o Time dos EUA)
Com o tempo, percebi algo que feriu um pouco meu ego: eu sabia esquiar, mas não tinha estilo. Eu descia a pista, sim; chegava inteiro, também verdadeiro. Mas era tudo força bruta e zero elegância. Parecia um trator descendo uma duna.
Anos depois, em um dos meus retornos a Portillo, cruzei com a equipe feminina de esqui dos EUA durante o acampamento de pré-temporada. Elas esquiavam juntas, em formação, e eu — me sentindo bem casual — me coloquei atrás do grupo. Tentei imitar cada movimento delas nas curvas longas do slalom, posicionando meus esquis exatamente nos rastros delas.
Spoiler: não consegui acompanhar por muito tempo. Depois de quatro ou cinco minutos, elas me deixavam para trás; velocidade e preparo físico estavam em outro nível. Mas o aprendizado visual foi brutal. Aquelas mulheres esquiavam como bailarinas na neve: técnica impecável, joelhos como molas, fluidez total. Eu observava, copiava e me corrigia na hora. A cada duas ou três descidas, conseguia alcançá-las novamente nos lifts Escuela 1 e 2, só para continuar estudando sua técnica.
Dito isso, eu tinha pavor de lombadas. Ainda não dominava a arte da absorção — deixar as pernas fazerem o trabalho, posicionar as lâminas com precisão, pular de mogul em mogul como se a gravidade não existisse. Elas faziam parecer uma dança. Eu tentava e, na melhor das hipóteses, sobrevivendo sem ejetar os esquis. Provavelmente pensavam que eu era algum garoto maluco perseguindo-as pela montanha, mas nessa idade você não se importa com o que pensam. Eu só queria parar de esquiar como um pedaço de madeira.
Lagunillas e o Salto no Vazio
Por mais que Portillo fosse meu lar espiritual, explorei outros lugares também. Lagunillas, por exemplo, foi minha verdadeira escola de coragem. Não era o resort mais sofisticado, mas era honesto — e acessível — o lugar perfeito para aprender. Foi lá que decidi que era hora de deixar de ser um “esquiador de pista plana” e encarar a vertical de verdade.
Lembro-me de uma aula em particular. O instrutor me levou a uma zona de declives íngremes — paredes quase verticais de neve que, do topo, pareciam um passo no vazio. O vento uivava, o frio cortava até os ossos. Ele olhou para mim, disse muito pouco, desceu primeiro com uma facilidade insultante, parou muito abaixo como um pontinho laranja, e gritou: “Faça exatamente como eu fiz!”
Fiquei ali sozinho. O silêncio da montanha era ensurdecedor. Respirei fundo, senti o ar gelado queimar minha garganta e fui. Os primeiros segundos foram puro instinto. Senti que estava voando. A velocidade aumentou instantaneamente, meu coração disparou e, de repente, comecei a ligar curvas exatamente como me ensinaram. A adrenalina corria como fogo líquido. Cheguei ao final tremendo, não de frio, mas de emoção. Naquela tarde, repetimos a descida várias vezes até minhas pernas pedirem misericórdia. Foi glorioso.
A Revolução do Carving: Da Pré-História à Leveza
Por anos, esquiava com equipamentos antigos: Dynastars longos, retos e implacáveis que exigiam esforço físico sério para curvar. Errar era impiedoso.
Mais tarde, enquanto estudava e trabalhava, aconteceu o milagre tecnológico. Entrei em uma loja e o cara disse: “Olha, tenho esses novos esquis parabólicos. Quem encomendou nunca veio buscar. Custavam 300 — leva por 100, com fixações e bastões.” Novos, com plástico ainda, e do meu tamanho exato.
Mudar de esquis retos para esquis de carving foi como sair de uma carroça puxada por cavalo para um Fórmula 1. De repente, esquiar virou um jogo. Não precisava mais lutar contra a neve para curvar — o esqui fazia o trabalho por mim. Tudo ficou mais limpo, preciso e, acima de tudo, muito mais divertido. Era como descobrir o esporte de novo.
Um Fim — e um Novo Começo
Foi assim que me apaixonei pelas montanhas. Subia incontáveis vezes, às vezes fazendo a loucura de dirigir de Santiago para lá e voltar no mesmo dia, esquiando sem parar das 10h30 até os lifts fecharem às 16h30. Chegava em casa exausto, mas com a alma cheia.
Olhando para trás, percebo que sou um amador sortudo — alguém que cruzou com as montanhas não por riqueza, mas graças a uma série de coincidências felizes e a uma paixão que nunca deixou meus esquis caírem.
Meu nome é Mauricio (Mauri, Mauro — como preferir). Deixei muitas marcas na neve chilena, mas minha história não termina aqui. Atualmente moro no Oriente Médio e em breve me mudarei para a Europa. Meu foco está nos Alpes e Pirineus, e prometo contar como é esquiar nessas cordilheiras distantes — onde as montanhas têm nomes diferentes, mas o frio e a liberdade são exatamente os mesmos.
Porque, uma vez que o esqui entra no sangue e você aprende sua linguagem, não há como tirá-lo do seu sistema.
Nos vemos no topo. ❄️⛷️

