Resgate na Montanha em Farellones: Uma História Real de Coragem e Patrulha de Esqui

Descubra um relato emocionante em primeira mão sobre um resgate na montanha em Farellones, Chile. De uma fratura no pé a pilotar um trenó de resgate, aprenda o que é necessário para lidar com uma emergência nas pistas dos Andes.

FARELLONESPR

Mauro | Esquiando desde 1978

3 min ler

Viagem no tempo
Não sou mais o garoto de onze anos que descobriu a neve pela primeira vez. Agora tenho dezessete, estou no último ano do colégio e esquiar se tornou mais que um hobby: é meu território. Passei anos na montanha, faltando às aulas às terças porque os passes eram mais baratos, acumulando horas de voo nas pernas e bronzeado pelas goggles de esqui no rosto, que pareciam medalhas de guerra.

Um novato solto
Naquele inverno, surgiu uma oportunidade através do Banco Central, onde trabalhava o pai de um amigo. Organizaram uma viagem a Farellones e nós fomos. Meu amigo era completamente iniciante, então passei a manhã ensinando o básico: o “quitanieves” (cunha), o equilíbrio e como não levar ninguém para pistas de iniciantes sozinho. A neve era indulgente e ele aprendeu rápido, o suficiente para que eu pudesse soltá-lo por um tempo.

À tarde, a montanha me chamava. Precisava deixar para trás os círculos verdes e buscar algo mais intenso, mais escuro. Saí para fazer o meu, sentir a verdadeira velocidade.

Estava a meio caminho quando vi algo estranho: uma figura caída na neve, em um caminho definitivamente não indicado para alguém que acabara de aprender a colocar as fixações... Meu amigo!!
Fiz uma parada brusca, levantando um muro de neve, e sua expressão dizia tudo antes mesmo de falar.

—Quebrei o pé! —gritou, entre dor e pânico.

O chamado à ação
Disse para ele não se mover. Estabilizei a área o melhor que pude e corri para buscar a Patrulha de Esqui. Tive sorte e encontrei um patrulheiro rapidamente, mas estava sozinho, arrastando um daqueles trenós que você nunca quer ver de perto.

Depois de avaliar meu amigo, o diagnóstico foi imediato: “Não dá para descer esquiando. Temos que colocá-lo no trenó.” Mas então o patrulheiro olhou nos meus olhos e largou a bomba:

—Estou sozinho. Não consigo descer esse trenó com ele nesse trecho sem sua ajuda.

Fiquei paralisado. Nunca tinha seguido um trenó de resgate na vida. Era uma enorme responsabilidade.

—O que eu faço? É minha primeira vez —disse, sentindo a adrenalina subir.

—Não se preocupe. Eu tenho o controle e a direção. Você só me segue e mantém o controle por trás. Vamos!

A descida: um slalom de alto risco
Prendemos meu amigo como uma múmia e começamos a descida. Não foi nada fácil. Controlar um trenó de resgate é como esquiar em um slalom gigante, mas com peso morto puxando você em cada transição. No começo, estava tenso, mas o patrulheiro era profissional.

—Fechem a cauda! Ajustem as bordas agora! —gritava acima do ombro enquanto o trenó ganhava velocidade perigosa.

Nos trechos mais inclinados, a gravidade ameaçava deixar o trenó nos passar, e eu sentia meus quadríceps queimando. O patrulheiro usava termos técnicos que eu entendia perfeitamente graças aos meus anos de pista: me pedia para “ancorar” os esquis enquanto ele buscava a linha para controlar o ângulo. Quando pegávamos muita velocidade, fazia um derrapagem lateral brusca e gritava: —Cunha forte atrás! Não deixe escorregar!

Tive que esticar as extremidades ao máximo, cravando as bordas na superfície dura para contrabalançar e evitar que o trenó girasse. Era uma batalha constante contra o peso e a inclinação. Finalmente, conseguimos sincronizar perfeitamente, traçando curvas amplas e potentes em uma parede enorme. Cada instrução dele era como um comando de voo: ajustava minha postura, direcionava meu peso para o esqui de descida e mantinha o trenó alinhado.

Aos poucos, estabelecemos uma velocidade constante e rítmica. Não lembro o nome da pista; só lembro da sensação de poder e controle absolutos em uma situação de alto risco.

O tratamento do herói
Chegamos à base. Os médicos assumiram o controle, colocaram uma tala, e a glória do domingo acabou. Na segunda-feira, não fui à escola. Estava destruído: estresse e esforço físico cobraram seu preço. Mas meu amigo foi, exibindo a tala recém-colocada e o rosto queimado pelo sol, com aquele bronzeado brilhante — o selo inconfundível de um final de semana na montanha.

Voltei na terça, também com meu olhar cansado. Assim que entrei, senti os olhares. Meus colegas me cercaram, não para perguntar como eu estava, mas com uma admiração inesperada.

—Ei, é verdade que você desceu com o trenó? —perguntaram—. Conte como foi!

Meu amigo já tinha contado a história, mas me deu o papel principal. Disse a verdade: que o patrulheiro comandava e me ensinou na hora; que não era tão difícil se você tivesse pernas para isso. Me trataram como herói por dias, e meu amigo, curiosamente, ficou um pouco com ciúmes. Já não era mais a estrela da história; o foco estava totalmente no resgate.